A difícil arte de não se importar

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(O grito – Munch)

Certa vez escrevi e publiquei um texto em meu blog, o Casa de Burlesco, onde reúno contos e poemas meus, experiências chatas que vivi em função do fato de ser gorda. Quem já sofreu ou sofre discriminação direta ou indireta sabe do que estou falando. Sofrer com o preconceito do outro nos faz pensar nos nossos próprios preconceitos, nas nossas antecipações, nos nossos julgamentos, que quase sempre são primários e baseados no que é observado da superfície.

Ontem Lika e eu resolvemos dar um passeio no Ibirapuera. Eu me mudei para São Paulo em fevereiro e não conheço ainda muita coisa da cidade. Acredito que Lika quis me levar lá para eu esquecer um pouco do cinza e da confusão do dia a dia nesta cidade. Chegamos lá, demos uma volta, mas como o parque estava muito cheio (muito mesmo!), decidimos esticar a tarde em outro lugar.

Quando pegamos o ônibus para voltar à Paulista, na hora que descemos no ponto, um rapaz, do nada, se dirige a mim com a seguinte pérola: “Tchau, gordinha, saco de bagulho”. Apenas desci do ônibus e olhei quem era o autor da frase brilhante. Aquilo minou meu humor, não há como negar. A simples frase daquela criatura me fez lembrar de experiências ruins que vivi em função da intolerância do outro. Não é uma frase dita que desanima a gente, mas sim um histórico de frases, exclusões e tantas outras coisas que nos derruba momentaneamente.

É decepcionante viver em um ambiente tão hostil. É decepcionante perceber que se você não faz parte de um padrão, ou melhor, de uma reunião de padrões, você automaticamente é banido ou tem seu direito de viver normalmente subtraído. As pessoas vestem suas fantasias de juízes, apontam dedos e tentam esconder apontando o outro aquilo que as deixam vulneráveis. Quem gasta seu precioso tempo julgando, ferindo, excluindo, quer é esconder seu tendão de Aquiles, ou aquilo que certamente nele seria julgado. Não estou emagrecendo para satisfazer o senso estético de quem seja. Não estou emagrecendo para não ser apontada na rua como aberração. Não estou emagrecendo para me parecer com Jennifer Lopez, Beyoncé ou quem seja, estou emagrecendo por ver que meu corpo não vai aguentar se eu continuar a me alimentar mal e não cuidar dele. Tenho um histórico familiar de cardíacos e se eu não quero passar por metade do sofrimento que alguns familiares já passaram, tenho mesmo que começar é de agora.

Se você está emagrecendo para satisfazer ao olhar do outro, lembre-se sempre que o outro sempre arranjará algo para apontar de negativo em você, então emagreça por sua saúde, por sua vida, para o prolongamento dos seus dias. Se você está emagrecendo para parecer com alguma celebridade, apenas pense que isso não te tornará uma. Emagreça por você apenas.

Quanto àqueles que se fantasiam de Deus, a apontar e julgar quem quer que seja, estes deveriam entender que são passíveis de humilhação também e que se a forma que encontraram para lidar com isso é discriminando, humilhando e excluindo o outro, digo apenas que nada disso anulará as chances de que venham a ser vítimas do mesmo joguinho de pré-julgamentos dos quais são hoje autores. Enquanto isso, o jeito é exercitar a difícil arte de não se importar. Escrevi porque é uma forma de catarse. Coloquei pra fora o que me incomodou. Dentro de mim só permanece aquilo que vem de quem realmente me importa.

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3 Responses to “A difícil arte de não se importar”

  1. Que bost maravilhoso. Sim, eu sei bem do que você falou, pois eu tive 140kg e minha história com excesso de peso iniciou qdo eu tinha vinte e quase nada anos e eu já entrei em processo sério, efetivo de emagrecimento já obesa mórbida, aos quase 47 anos de idade. Foi tempo pra caramba fora de padrões e cada vez mais. O título do post fala tudo: ‘Aprendendo a não se importar’. Sempre comento que aquilo que eu não tinha como contornar fisicamente, por estar realmente muito gorda e pesada, eu aprendi a contornar emocionalmente. E me refiro, entre outras coisas, a isto aí, a aprender a ‘não me importar’ com os olhares severos, as piadas sem graça, os comentários muitas vezes ditos com ar de quem quer ajudar, mas que muitas vezes visavam era minar a auto-estima, os risinhos e cutucões. Sim, eu durante anos e anos percebi alguém cutucando outro alguém ao me ver, para mostrar ‘como é gorda’. E tantas coisas. E fui aprendendo a ‘não me importar’. Criando meu jeitinho, já que não fazia nada efetivo para mudar minha própria situação. O jeitinho era antecipar a piada, algumas vezes, antes que o gaiato soltasse a pérola dele, eu já falava algo até pior, rindo de mim mesma, mostrando que ele perderia tempo. O jeitinho era encarar com ar ainda mais debochado aquele que achava que ia falar uma bobagem para o colega do lado, na hora que eu virasse a cabeça, aí eu não virava e ‘brincava’ de ‘vamos ver até onde vc aguenta esperar eu me virar para falar de mim seu babaca’. Estas coisas que só a gente percebe. Uma vez eu vinha da água, na praia, de maos dadas com o namorado, notei uma garota chamando as duas amigas para me verem, o namorado passou na frente (o espaço ali era estreito entre as cangas) e eu atrás percebi qdo ela disse “olha só que mulher enorme” e não aguentei. Olhei para ela com ar cínico e disse “pois é, eu sou enorme e estou com meu namorado na praia, você é tão magrinha e está com quem?” Que coisa feia… mas tinha dias que eu fingia menos que não me importava. E garanto, aprendi até a não me importar de verdade, em tantas outras situações e este é o perigo. A gente não tem que se importar com o julgamento alheio, mas o fato é que se aprende isto, acaba confundindo, como eu confundi por um tempo, com ‘não me importo de estar assim’ e não agindo também.
    Nao é o seu caso, que está na estrada, vencendo a cada passo. E quer saber? Quem aponta, aponta muito mais porque é fácil apontar o próximo, esquecendo daquela frase certa que diz que qdo apontamos o nosso indicador para alguém, outros 3 dedos, no mínimo, estão apontados para nós mesmos. Mas isto ninguém olha né?
    E quem aponta, será que é tão ‘no padrão’ assim? Se vc é gordo, é pq é gordo. Se é magro, é pq é magro. Se tem uma pinta sei lá onde, a pinta é o alvo. Se o nariz é maiorzinho ou sei lá o que, então ele no foco. Se é perfeita de corpo, a sua voz pode ser motivo de comentários, ou o seu jeito de ser, sempre haverá quem fale, quem aponte. Vc disse tudo: façamos o melhor por nós, POR NÓS, POR NÓS, POR NÓS, porque queremos, merecemos e nunca para deixarmos de ser alvo, porque isto não existe. A inveja é uma merda, frase de para-choque de caminhão, mas é verdade. E a falta de sensibilidade, de educação e tudo mais, é muito pior. Beijos no coração e parabéns por tudo.

  2. oi jana!! td bom?
    pois, eu to meio que numa fase deprimida tb pelo excesso de peso…as vzs eu me olho e penso ” como eu deixei chegar a isso?” pois… o pior é que nao percebi mesmo..cai na real quando passei por uma situacao parecida com esse post, tava eu feliz e saltitante no iguatemi com uma amiga falando no celular qd passa uma criatura e diz ” vende o celular e paga uma academia sua gorda” afz !! q eu queria cavar um buraco e jogar terra em cima… foi recente isso..e tb percebi que estou perdendo meu bom humor e em alguns casos trato meu bem com grosseria , logo ele q me da tanto amor tanto apoio tanto carinho… foi ele que me mostrou o blog de vcs ( esta otimo por sinal!) e resolvi entrar nesse processo nao só pela saude fisica ms tb pela saude mental!!

    bjs e sucesso!!!!

  3. Bela, se você puder eu te aconselho procurar o vIgilantes do Peso. Foi o único meio que funcionou realmente com a gente e que não te deixa a sensação de que terá de abrir mão de tudo. Como tudo que gosto, mas de maneira moderada mesmo, sem exageros.Agora estamos tentando cortar a carne vermelha e ficar no peixe e na soja, por questão de saúde tb.
    Desejo muita força pra você e sempre que precisar de um impulso, passe aqui. :************

    Beijo e abraço apertado,

    Jana.

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