A difícl arte de não se importar – Parte 2

Não é nenhuma novidade mesmo que quem enfrenta o problema da obesidade, por tabela enfrenta preconceito. Certa vez postei aqui um texto falando sobre uma daquelas experiências chatas que a gente acaba passando e hoje, mais uma vez, de novo, novamente, algo deste tipo aconteceu.

Fábio veio passar o feriado aqui em Salvador, pra me visitar, já que não pude voltar para São Paulo ainda devido ao estado de saúde de minha vó, que, infelizmente, agrava-se a cada dia. Fomos visitá-la no hospital e estacionamos o carro do outro lado da rua. O sinal estava fechado e acabei perguntando a Fábio se dava tempo de atravessar e atravessamos. No meio da pista, um ser humano põe o pé no acelerador para nos dar um susto. Eu saí correndo pra atravessar mais rápido, e depois ele começa a gritar chamando a gente de gordo e mandando a gente pagar uma academia. Meu senso de humor, que ultimamente anda inexistente, não levou a coisa na boa. Estou estressada, chateada, apreensiva, triste com a situação de minha vó e de brinde ainda tenho que lidar com gente, cujo maior projeto de vida que pode me ofertar é mandar que eu pague uma academia. Às vezes eu me pergunto sinceramente que tipo de mente vive apenas em função do corpo. Eu não vivo em função do meu corpo, eu vivo em função dos meus sonhos, das pessoas que amo, daquilo que gosto, daquilo que admiro, das coisas que quero conhecer, da minha saúde e de tantas outras coisas, que deveriam ser mais valiosas do que mandar alguém se trancar em uma academia. Não tenho absolutamente nada contra as academias, tenho sim contra alguns tipos batidos que as frequentam. Algumas pessoas buscam as academias pela qualidade de vida, outras, como o rapaz que ousou falar tal peróla, é o tipo narcisista, que passa a maior parte do tempo levantando ferro diante do espelho, se comendo com os olhos e achando que é foda e que tem o direito de humilhar quem não ver a vida nesta perspectiva tão limitada como a dele. Ultimamente a paciência me falta.

Emagreci até agora quase 17 quilos, Fábio emagreceu quase 20 quilos, mas continuamos gordos sim, afinal eu saí dos 117 e ele dos 140. Ainda estamos muito acima do peso, mas estamos em processo de emagrecimento. Não vou dormir com 117 e acordar com 60 de uma hora pra outra. A única coisa que sei e que repito é que não emagreço para não chocar os olhos sensíveis de acéfalos como ele. Emagreço porque quero viver e esta é a minha maior prioridade e maior impulso. Se ele soubesse do final dos Narcisos, do mergulho em sua própria imagem, do afogamento em si, ele provavelmente iria reavaliar as bobagens que solta para o mundo. Há pessoas no mundo tão afogadas em seus padrões, tão bitoladas com seu pretenso direito de julgar quem seja, que não enxergam seus problemas e tentam resolvê-los. Pessoas assim julgam, apontam para não terem que se confrontar com seus próprios limites. Eu pelo menos tenho consciência dos meus e tento mudá-los.


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