Hoje eu estava indo para o curso de nutrição e fiquei observando, na estação da Sé, como as pessoas saem descabeladas correndo (literalmente) de um metrô para descer as escadas rolantes e pegar o outro. Eu sempre ando pelo meio, porque não me arrisco a caminhar pela beirada com tanta gente, aprendiz de atleta olímpico, correndo às 6:30 da manhã pela plataforma. Não sei se acho ridículo tudo isso, mas a impressão que me dá, às vezes, é que as pessoas estão buscando meios de felicidade meio tortas. Felicidade é correr, atropelar todo mundo pela frente, pra chegar primeiro na porta do vagão? Ou atropelar alguém dentro do vagão por um lugar vazio? Não sei. Acredito que tudo isso deva funcionar como um troféu imaginário ou algo assim. “Eba, cheguei primeiro! Eba, sentei no banco!”.

Parece-me sempre que a “felicidade” sempre está associada ao outro. No caso dos corredores de metrô, parece-me que a felicidade está na disputa. “Cheguei primeiro, logo sou foda!”. Isso sempre tendo como parâmetro o outro. A felicidade está em diminuir o outro? A felicidade está na aprovação do outro? No reconhecimento do outro? Na atenção do outro? Parece sempre que o outro carrega a responsabilidade por nossa alegria e satisfação e neste processo quem vamos nos tornando?

O Mini Size é declaradamente um blog voltado para a nossa busca de qualidade de vida através da mudança de hábitos alimentares, mas nossa felicidade não está dirigida a este ponto. Minha observação em relação ao metrô foi um gancho para trazer a discussão para o contexto do blog, que trata, entre outras coisas,  de mudança de hábitos alimentares aos seus desdobramentos.

Em julho completaremos um ano de blog e um ano de mudanças relacionadas à nossa alimentação e estilo de vida. Há um ano atrás, comíamos mal, em grande quantidade e acredito que apesar de obsesos, não estávamos nutridos. Nossos nutrientes, sejam os macronutrientes ou os micronutrientes, deveriam estar completamente desbalanceados. Nosso impulso primeiro em fazer mudanças foi a constatação de que se continuássemos daquela forma, morreríamos cedo. Hoje, o primo de minha mãe, que não deveria ter nem 40 anos, faleceu de infarto fulminante. Ele estava bem acima do peso, tinha uma alimentação desregrada e, com a correria cotidiana, acabou deixando este mundo cedo. Não quero isso pra mim e muito menos para Fábio, mas sei que minhas chances de acontecer algo assim não são pequenas.

Além de observar pessoas no metrô, neste tempo de vida do blog, visitei muitos blogs sobre emagrecimento e continuo achando que as pessoas estão perdendo demais o foco e projetando toda a sua felicidade para o dia que ficarão magras e caberão em todas as roupas de todas as lojas disponíveis.  É bom lembrar que nem sempre atingir o peso ideal significa que você agora é um indivíduo saudável. Muitas pessoas emagrecem das maneiras mais loucas, agredindo seus corpos, para serem aceitas, encurtando o seu tempo de vida, desenvolvendo doenças ou transtornos por colocarem na cabeça que para ser feliz é preciso ser parte de um padrão. Novamente, a felicidade está sendo projetada no outro. Preciso ser aceito, preciso fazer parte. Resta saber por que tipo de pessoa você quer ser aceito. Se são pessoas que prezam a imagem acima de tudo… Obrigada, mas meu caminho é outro.

Quando vejo meninas se matando para chegarem a um peso que estipularam para si, sem grandes parâmetros, e afirmando que só serão felizes no dia que atingirem este ponto, o ápice, pergunto-me o que vem depois? A felicidade será plena a partir daí ou o que encontrarão é um grande vazio e a insatisfação? Somos seres desejantes e ainda bem que desejamos, pois no dia que deixamos de querer, caminhamos para quietude. Mas querer, desejar, não significa optar por um caminho destrutivo. É necessário medir o que queremos e perceber o que isso envolve. “Isso é mesmo necessário?”. “Passarei por cima das pessoas para conseguir?”. E tantas outras questões mais. Hoje a sociedade nos bombardeia a todo momento dizendo que precisamos ter isso pra sermos felizes, sermos aquilo para sermos felizes e, no fim, acabamos até desconhecendo o que realmente queremos.

Ainda tocando no assunto, vejo pessoas, que estão neste processo de borboletamento (afinal só se vêem fora do casulo depois de magras), direcionando sua felicidade apenas para um ponto na vida e esquecendo do resto, resumindo tudo em um mergulho de Narciso e em monotonia. Neste processo, acabam virando pessoas de uma nota só: meu corpo, meu corpo, meu corpo. Sabe… Quero muito cada dia mais ganhar consciência do que preciso comer para viver mais, para viver bem, ao lado da pessoa que amo. Quero ter saúde para conhecer os lugares lindos que este mundão guarda, quero ouvir muitas canções ainda, ler muitos livros, ver filmes bacanas, abraçar as pessoas que gosto, conhecer novas… Viver. Porque a felicidade não está em entrar em um vagão de metrô primeiro que todo mundo, acumular bens, usar roupas caras, caber em todas as roupas do planeta. A felicidade está na capacidade de cada um perceber que apesar da vida ser complicada, cheia de “perrengues”, é também um privilégio. Privilégio sim e dos grandes. Por isso que pessoas, que por alguma razão adoecem, se agarram tanto à vida, porque sabem o quanto ela é valiosa em suas tensões, entre suas oscilações de prazer e dor. É bacana estabelecer metas, mas é melhor ainda não se fixar nela como único farol. A vida é caminho múltiplo e não vivemos isolados apenas na busca de um ponto. Sempre temos muitas coisas acontecendo à nossa volta e, se esquecemos de olhar para os lados, a vida passa, as pessoas que nos amam passam e ficamos a ver navios, nos segurando naquela meta apenas, naquele resto de mastro, naquela madeirinha em meio a um naufrágio, em que foram perdidas tantas coisas profundamente mais importantes. Por isso deixo que corram na plataforma de metrô, que enlouqueçam por causa de roupas e padrões Globo. Eu quero vida, olhos acesos e braços abertos. A vida é movimento e quero caminhar meu tanto.

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