Diversidade de supermercado?
Todos diferentes e tão iguais… Você já parou para pensar se seus gostos e suas escolhas são realmente seus ou se os mesmos andam ultimamente direcionados demais pelo que se conhece como discurso autorizado, como mídia, moda, etc? Será que o livro que você lê é escolha sua ou é parte dos dez mais da Veja ou dos citados pelo ator tal, da novela tal? Será que os lugares que você escolhe para ir são escolhas que partem de você ou são os ditos lugares da moda, que todo mundo precisa ir para não ficar de fora? Será que suas atitudes diante do outro são realmente suas, ou você age assim ou assado para se enquadrar e não ser criticado? Numa sociedade em que padronizar é a palavra de ordem, quem não quer ser igual, hein?
Acredito que a maioria dos problemas de um adulto começa na infância ou na adolescência. Meus problemas começaram na infância. Problemas relacionados à vivência com o outro é claro. Repeti umas centenas de vezes, que minha história com a obesidade começou desde cedo, desde que eu era uma menina. Das brincadeiras de elástico que não participei às aulas de educação física que era colocada de lado, dos apelidos escrotos às festinhas a que nunca fui convidada, passei minha infância querendo ser tudo menos gordinha. Comecei a associar que para brincar de elástico, para participar das partidas de baleado, para ir às festinhas, teria que emagrecer. Tentativas frustradas e lá fui eu em frente como gordinha sempre.
À medida que os anos passavam, minha sensação de que não fazia parte de nada só aumentava. Os amigos que eu tinha eram como eu: fugiam de esteriótipos, não se adequavam, não se adaptavam, enfim, estavam tão à parte quanto eu. Quando a sensação de rejeição cresce, a auto-estima vai parar no pé e é aqui que o desejar deixa de ser algo aparentemente autônomo e passa a ser algo definitivamente externo. Meus desejos vinham de fora, apontando dedos, me frustrando cada vez que eu descobria que aquilo não condizia com minha realidade.
Quando você descobre que seus desejos não são realmente seus, fica mais fácil de se direcionar a eles de maneira mais racional, mas para um adolescente nem tudo é tão claro. A minha epifania, de que nem me enquadrando eu seria aceita e não passível a críticas, foi acontecendo no fim da adolescência, quando fui percebendo que cada vez que eu tentava me ajustar, eu me afastava das coisas que eu realmente acreditava serem importantes para mim. Entre viver um simulacro, uma pseudo-vida ou viver o que tinha de viver, com meu corpo, com meus referenciais, com meus desejos, que nada tinham haver com comerciais televisivos, optei em ser aquilo que eu acreditava ser escolha minha e fui seguindo meu caminho.
Não é difícil entender que a sociedade, da qual fazemos parte, manipula os nossos desejos e inseguranças e converte tudo em produtos sejam eles materiais ou culturais. Desejamos o que para sermos aceitos? Que posturas devemos adotar para fazermos parte? De moda à comportamento, o indivíduo desempenha cegamente o seu papel nesta estrutura. Consome a roupa que o fará ser parte de um grupo, ouvirá as canções que todos ouvem, lerá o best seller que todos lêem, irá ao restaurante para onde todos vão. Neste processo, alimentamos a diversidade de supermercado, onde a variedade nunca significará singularidade. Apesar da oferta grande de variedade, a própria variedade trará o igual dentro do contexto que apresenta. Por isso, ao andar nas ruas, não raras às vezes temos a sensação de que estamos em um videoclip em reprise contínua. Todos parecem tão iguais, todas as conversas parecem girar em torno do mesmo ponto e a sonolência se instaura. E quem quer, neste meio, fugir do igual paga por vestido exclusivo, que outra copiará e assim a nação genérica se forma e se impregna cegamente. Então, se seu caminho não é bem esse, não precisa também entrar na paranóia da patrulha por uma originalidade impossível. Apenas não esqueça de você como indivíduo, como ser único. As prateleiras andam cheias de novidades, basta você escolher se quer ser mais um na multidão, descaracterizado, homogeneizado ou se você quer um pouco mais para você mesmo. Sim, o mundo infelizmente virou uma grande prateleira e a diversidade é de supermercado… Reveja seus desejos…
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Nossa
Lindo texto, uma estrutura e uma mensagem excelentes…
Oi, linda! Teu comentário é a pura verdade. Foi o primeiro desafio desses que participei e está sendo válido pelas poucas pessoas que conheci. Não sei se participarei de outro, já estou achando mais fácil organizar o meu próprio.
Eu adorei o texto desta semana, ainda não tinha tido tempo de vir aqui comentar, pois recebo por e-mail.
Mas achei perfeito. Lembrei de um outro texto que li há algum tempo: http://obscureideas.blogspot.com/2007/06/cenas-sensuais-antolgicas-encenadas-por_28.html
Que me encheu de idéias e me deu uma sanha de Britney Spears…
Tosei as melenas curtas, mantive o cacheado e assumi a cor natural. Como a gente se submete diariamente aos padrões e às opiniões alheias! Incrível! É uma necessidade de ser amado, aceito, aprovado, quando basta que nós mesmos nos amemos, nos aprovemos, nos aceitemos. Ultimamente tenho filosofado muito sobre essa carência “global”…
Bjks del Sur!
Excelente o seu texto! Até um certo ponto na vida eu me esforcei para ser “igual”, mas era difícil porque não conseguia me identificar com coisas impostas pela mídia. Há uns 12 anos ou mais, não sei o que é Veja, o que é Rede Globo, o que é escutar a tal da Ivete ou Madonna, não vejo filmes com Julia Roberts ou Brad Pitt. As pessoas me acham muito estranha. Hoje em dia eu gosto de ser diferente e até me divirto com isso.
Ah! Nos blogs light eu vejo as meninas dizendo que querem ter o corpo da Fulana de Tal, eu nem sequer sei quem são essas fulanas!!
Interessante o texto… me fez refletir várias coisas.
Maysa