Algumas pessoas podem acreditar que viver em sociedade é algo que não envolve desafios, superações, exercícios de tolerância, mas tendo em vista que as perspectivas são múltiplas, faço parte do grupo imaginário das pessoas que acreditam que viver em sociedade é tarefa desafiadora e árdua.

Acredito que um dos pontos, que gera conflitos, é sem dúvida alguma a intolerância. O ser humano em geral consegue analizar e julgar o outro sempre a partir do seu ponto de vista, a partir daquilo que considera como certo ou errado, movimento tanto quanto maniqueísta inclusive. Apesar de vivermos em um espaço plural, de diversidade que abarcam desde características físicas a culturais, ainda assim convivemos com padrões, com formas, apregoadas como verdades inquestionáveis e que são utilizadas como mecanismo de controle e homogeneização. Temos de padrões estéticos à religião padrão. De padrões comportamentais à orientação sexual padrão e assim por diante. Tudo tem que se encaixar nestas formas para que sejamos aceitos, para que não soframos a violência do julgamento por sermos diferentes e cada vez mais as pessoas se violentam, negando suas identidades para não serem arbitrariamente marginalizadas.

Os conflitos religiosos acontecem porque os representantes e seguidores de determinada religião, para legitimarem seu espaço, o fazem criticando outras manifestações religiosas. Tudo movido pela intolerância e falta de projeção em tentar vivenciar a realidade do outro para compreendê-la. A sociedade massacra os homossexuais, generaliza, banaliza suas causas e tentam a todo custo impedir direitos legítimos por lei, que seriam garantidos caso nosso Estado fosse realmente laico e não um puxadinho da Igreja. Tudo porque há um padrão que nega outras relações que não sejam as heterossexuais. As lojas vendem roupas até o tamanho 44, 46 no máximo, porque há um padrão que diz que se não cabemos nesta unidade de medida, temos que nos virar para nos enquadrar, senão andaremos nus, o que seria um tremendo caos, visto que por lei seria atentado ao pudor e seríamos consequentemente presos. Tudo porque convencionou-se que a moda dita o que é certo e errado, o que é aceitável ou não, o que é permitido ou não. Vemos então um mar de pessoas usando as mesmas roupas e aquelas que não conseguem entrar nas mesmas, se torturarem por não poderem ser iguais. Que mal tão grandioso é esse de assumir a singularidade? Que mal tão grande é esse de optar pela personalidade, em vez de simplesmente seguir o fluxo? Não entendo.

Viver em sociedade é um desafio diário. É uma perspectiva pessoal. Sou eu assinando aqui. Sei que se ajustar pode ser para muitos a única forma de não ser agredido, mas não acredito também que a vida tenha que ser obrigatoriamente um nadar sem esforço. Não quero deixar meu corpo ser levado pela corrente. Ainda tenho braços e pernas. As pessoas estão cada vez mais frustradas, tristes, sucofacas de tantos referenciais fixos, que não é a toa que as salas de psicólogos andam abarrotadas. Com tantos referenciais no entanto para serem seguidos, tantas bússolas imaginárias, vejo um paradoxo no entanto: pessoas cada vez mais desorientadas, que estão se afastando cada vez mais daquilo que acreditam ser para se aproximarem mais daquilo que a sociedade espera que ela seja. E há quem ainda acredita que viver em interação com outras pessoas não seja um desafio…

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