Pensar como magro? Como assim?

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(Imagem: Fernando Botero)

Várias vezes ouvi afirmações como esta: “Para emagrecermos, precisamos pensar como magros”. Acho interessantes estas frases típicas de livro de auto-ajuda. Como assim pensar como magro? Será que todo magro controla a qualidade e a quantidade dos alimentos que ingere? Será que todo magro pratica exercícios para manter a saúde em dia? Será que todo magro pensa teoricamente magro? Será que o magro não adora chocolate e suspira quando vê um ou tem sonhos eróticos com uma fatia de pizza? Enfim, queria saber quem desenvolveu esta teoria de que todo magro pensa em folhas de alface, caminhadas às 5 horas da manhã e ainda abomina doces e alimentos calóricos em geral.

É realmente preocupante como ainda as pessoas sustentam lendas urbanas como esta: de que pessoas com excesso de peso são verdadeiras máquinas de comer, gulosas e não possuem nenhuma preocupação com o que ingerem e que o magro, por ser magro, é o comedido, o consciente. Longe de cair em um maniqueísmo maluco, de um “gordos versus magros”, o que quero chamar atenção é exatamente para estas malditas construções que são feitas em relação às pessoas que, por razões múltiplas, sofrem com a obesidade. A obesidade é uma doença multifatorial, ou seja, há inúmeras causas para seu aparecimento e os tratamentos nunca se restringem apenas ao “fechar a boca”. Há pessoas que sofrem com ansiedade, depressão e que precisam de acompanhamento psicológico para lidar com a obesidade, outras possuem algum problema na tireóide, apesar dos casos serem mais raros, etc. Resumindo, o obeso, meu povo, não é sinônimo de glutão e desesperado. Há pessoas que enfrentam a obesidade e que são extremamente conscientes em relação à alimentação. É preciso derrubar aos poucos o clichê de que o obeso precisa ser amarrado pra não devorar até os seus pensamentos, inclusive para que as pessoas, que lutam para administrar este problema, não incorporem esta dita verdade inqüestionável e não se auto-flagelem por causa da generalização irresponsável do outro.

Controlar a alimentação, a quantidade e a qualidade do que é ingerido, não é privilégio e exclusividade do magro, porque muitos nem partilham desta preocupação. O cuidado com a alimentação e com a saúde é próprio de todos aqueles que se preocupam em viver mais e de forma saudável. Logo, quando você ouvir alguém dizer “pense como magro”, questione de onde surgiu esta teoria furada e depois me conte de que boca abençoada saiu tamanha besteira.


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